Perguntas
Fiquei de pau duro no provador enquanto o vendedor media a barra da minha calça
Dá pra sentir um desejo tão forte assim em público sem ninguém perceber?
No meu caso, deu e não deu. A loja estava cheia, a gente disfarçava com conversa fiada, mas o meu corpo entregou o que a boca não dizia. Foi essa mistura de tesão e disfarce que ficou marcada em mim, e é dela que fala o artigo.
Como é querer um homem quando você ainda não saiu do armário?
Eu aprendi a querer escondido do mesmo jeito que aprendi a esconder uma ereção no meio da loja: o desejo vinha inteiro, mas tinha que caber num espaço apertado, sem nome e sem ninguém ver. Só hoje entendo que aquilo não era vergonha do desejo, era falta de permissão pra querer em voz alta. Conto isso no texto.
E quando o outro só quer experimentar e você quer mais?
Comigo foi assim, e não teve vilão nessa história: eu queria algo além de só curtir, e ele só queria estar com gente, sem compromisso. A gente foi se perdendo sem briga, do jeito que se perde o que nunca chegou a ter forma. É desse descompasso que o artigo trata.
Me apaixonei à primeira vista por um perfil sem foto
Amor à primeira vista existe mesmo?
Eu também achava que não, que era invenção de novela. Até acontecer comigo, num sábado banal, com um homem que eu tinha acabado de conhecer. Existe sim. Eu vivi.
Como é se apaixonar por alguém que você conheceu num app?
No meu caso, foi um perfil sem foto que virou, em poucos minutos, a pessoa por quem eu me apaixonei à primeira vista. Não teve nada de frio nem de calculado. Foi um beijo na porta de um apartamento e o mundo mudando de cor.
Não é loucura pedir alguém em namoro no segundo dia?
Racionalmente, é. Eu comprei uma orquídea e pedi ele em namoro dois dias depois de conhecê-lo. Mas quando a paixão chega inteira de uma vez, a gente não fica calculando. E eu não troco aquele começo por nada.
Um homem gozou em mim pela primeira vez quando eu tinha 10 anos de idade
A maioria dos abusos acontece dentro de casa?
Aparentemente sim, e no meu caso foi exatamente isso que aconteceu. Alguém de dentro de casa, e ninguém em volta desconfiou.
Por que uma criança abusada não conta na hora?
Porque muitas vezes ela nem entende que foi abusada. No meu caso, como eu também fiquei excitado, eu me senti muito mais culpado do que abusado. E quem se sente culpado quer é esconder. No fim das contas, a criança não se sente vítima, se sente responsável, e cala.
Como proteger uma criança de abuso dentro da própria casa?
Conversando. Sexo não pode ser tabu, porque é uma coisa natural da vida, e quanto mais cedo a gente quebra esse silêncio, melhor. A criança precisa saber que o corpo dela é dela, que ninguém pode tocá-la sem o consentimento dela, e que ela pode contar aos pais ou responsáveis o que estiver acontecendo. E os adultos precisam criar um ambiente de segurança e confiança, pra criança se sentir à vontade de falar. O abuso conta com o silêncio; tirar o silêncio é tirar o esconderijo dele.
Excitado aos oito anos de idade com um homem de cueca
Qual foi a sua primeira memória gay?
Essa, provavelmente. Eu tinha oito anos e nem sabia que existia um nome pra aquilo que senti. Só fui reconhecer como uma das minhas primeiras memórias gays muitos anos depois, quando finalmente tive as palavras.
Como era crescer gay nos anos 80?
Era escancarado que ser gay era errado. Virava chacota na televisão, dentro de casa, na escola, na rua, em todo lugar. E isso empurrava a gente cada vez mais pra dentro do armário, cada vez mais fundo.
Por que a gente sente vergonha de algo que nem entende quando criança?
Por causa disso mesmo. Desde cedo, o bullying e os xingamentos de viadinho, de bichinha, já vão te moldando. Você se adapta pra caber no padrão que aquele ambiente exige, seja na escola, em casa, na família ou entre os coleguinhas. A vergonha vem antes do entendimento.